Estratégia
A Guerra Comercial entre China e EUA: Estratégia de longo vs curto prazo

Estratégia é uma das áreas em que é possível fazer metáforas com diversas outras, principalmente aquelas que envolvem algum tipo de competição.
Relações/Políticas Internacionais é uma delas.
No episódio #126 do podcast Chutando a Escada, o Professor Dr. Alexandre Cunha Leite, da UEPB, conversou sobre a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos.
Antes, porém, quero deixar claro que não acredito que se deva administrar um país como se fosse uma empresa - apesar de ter gente chamando "Trump de CEO das Américas" - e que deixo aberto um mundo hipotético em que os EUA poderiam “escolher facilmente” pela manutenção de um único partido e que não haveria disputa pelo coeficiente democrático a cada 4 anos.
Dito isso, logo de cara, Leite mostra um país cuja estratégia é defender sua posição hegemônica com iniciativas de curto prazo, visando às próximas eleições, contra um país que tem uma estratégia de longo prazo e uma visão muito clara do que ambiciona ser no futuro.
A forma como a China lida com o tempo é diferente, aponta o professor. Existe uma noção de temporalidade em que os objetivos não são para os próximos 3, 4 anos - ou, como acontece aqui no Brasil, para a próxima emenda parlamentar. A formação dos políticos por Pequim também mostra a importância do pensamento de longo prazo, já que eles são formados - sim, existe uma formação para ser político - para manter uma coerência com as decisões programadas para o futuro.
Claro, um pilar importante da política chinesa é a ausência de coeficiente democrático. Ou seja, não há alternância de poder a cada 4 anos, e as iniciativas não visam a uma possível reeleição. As decisões contribuem para a manutenção do Partido Comunista, que, para manter sua hegemonia, entre outras coisas, definiu que a população chinesa não deveria ter carência de nada.
Sim, N-A-D-A.
O atual planejamento da China datado de 1990 tirou 3 Brasis da miséria - cerca de 600 milhões de chineses -, universalizou o sistema de saúde que existe um depósito prévio, mas o cidadão é ressarcido em seguida (97% da população vive com esse sistema); na educação existem olheiros para identificar habilidades especiais nas crianças, se é bom de ouvido: vai estudar música, se tem boa estatura, vai para o esporte.
Vale lembrar que estas são áreas em que os EUA atualmente passam por severas críticas de sua população e que, como apontam especialistas, a decisão de curto prazo de Trump de deportar imigrantes em massa pode ter um impacto gigante na economia americana no longo prazo.
A postura da China, segundo Leite, é sempre pragmática. Se os EUA decidem tarifar produtos chineses, Xi Jinping, que tem uma capacidade única de olhar para o médio e longo prazo, simplesmente pode dizer que proibirá a Apple no seu país, gerando um impacto de 20% em uma receita de US$ 120b para a empresa do Vale do Silício. Ou aumentar os impostos sobre produtos importantes para os EUA, em regiões prioritárias eleitoralmente para o Trump.
Esta postura pragmática foi vista em terras brasileiras durante o governo Bolsonaro, que, apesar de ter a China como principal parceira comercial, o via como inimiga ideológica. A China simplesmente tinha uma postura tranquila, serena e desaparecida. Sem dar respostas duras, deixou o tempo fazer o seu serviço, pois se quisesse barrar a economia brasileira, o faria facilmente.
Não o fez porque sabia que o governo bolsonarista ficaria por apenas 4 anos - no máximo 8 - e deixou o Brasil se digladiar internamente, enquanto negociava com outros países.
Esta política de Soft Power mostra uma China ainda mais preparada e harmoniosa para o poder, sem querer parecer dominadora. Na nova etapa da guerra comercial em que os EUA decidiram taxar produtos chineses em 10%, ter uma visão de longo prazo permite a Xi Jinping dizer com muita tranquilidade que nesta guerra comercial não há vencedores.
A consequência desta postura é que hoje a China é um país capaz de desafiar os EUA e que gradualmente está ocupando o espaço na produção tecnológica de países como Japão e Alemanha.
Vale lembrar que produtos Made in China, nos anos 90, eram sinônimos de cópias baratas, por isso a estratégia anterior teve a missão de tirar a percepção do mundo de uma grande montadora (criadora de réplicas) e apresentar uma China produtora de tecnologias elaboradas.
Nesta estratégia, foram direcionados investimentos para setores prioritários como tecnologia, robótica, automação, engenharia marítima, transporte ferroviário, novas bases energéticas, setor agrícola e produtos biofarmacêuticos, para posicionar produtos Made in China em uma posição de liderança global nos principais setores de alta tecnologia até 2049.
O planejamento é revisto de 5 em 5 anos. Os principais indicadores do 14º 5YP (2025) da China foram:
Desenvolvimento econômico →
PIB: manter dentro de um intervalo razoável, cada ano dependendo do contexto.
Crescimento da produtividade de trabalho: maior do que o crescimento do PIB
Taxa de Urbanização: Crescimento de 4,4%
Inovação
Gastos em Pesquisa e Desenvolvimento: Maior que 7%, ambicionando ser maior do que o investimento do plano (2.2% do PIB)
Número de patentes de inovação por 10.000 pessoas: 5,7%
Participação da Economia Digital no PIB: 2,2%
Bem-estar
Aumento de renda: em linha com crescimento do PIB
Taxa de desemprego: cresce, mas não pode ficar maior que 5,5%
Média da educação da população em idade produtiva: de 10,8 para 11,3
Média de médicos para cada 100k cidadãos: De 2.9 para 3.2
Taxa de participação no seguro de pensão básica: 91 para 95
Número de enfermeiros para crianças de até 3 anos de idade a cada 100k crianças: de 1.8 para 4.5
Ecologia Verde
Redução do consumo de energia por unidade do PIB: 13.5
Redução da emissão de dióxido de carbono por unidade do PIB: 18
Participação de dias com boa qualidade do ar: de 87% para 87,5%
Participação de água com qualidade de 83.4% para 85%
Segurança
Capacidade de produção de grãos abrangente: >650mn toneladas
Capacidade de produção de energia abrangente: >4.6bn de toneladas de carvão.
Olhando para a ambição e objetivos da China, fica fácil perceber por que ter visão e planejamento de longo prazo traz segurança para tomar decisões com tranquilidade e sem muita afobação.
Vale lembrar que países como o próprio Brasil e os EUA também possuem planejamento estratégico para os próximos anos, mas não com a objetividade chinesa.
A própria visão de futuro do Brasil para 2027, papo da última newsletter, parece pouco factível e balizador de qualquer decisão que o país deveria tomar: “Um país democrático, justo, desenvolvido e ambientalmente sustentável, onde todas as pessoas vivam com qualidade, dignidade e respeito às diversidades”.
Se fosse levado a sério, estaríamos investindo tempo, recursos e dinheiro em energias renováveis, na formação e educação de pessoas para produzir conhecimento em áreas relacionadas à sustentabilidade e não em furar a margem equatorial para se tornar um dos maiores produtores de petróleo do mundo.


