Pensamentos

O capitalismo fagocita tudo: levaram nossas utopias

Eduardo Galeano tem uma célebre frase sobre utopias. Quando perguntado para que servem respondeu: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Alberto Costa, Ex-Ministro de Minas e Energia do Equador, também aborda a importância das utopias na introdução do livro "Bem Viver - uma oportunidade de imaginar outros mundos”. Diz ele que ideias utópicas, ainda que distantes, ajudam a pensar soluções para os problemas mundanos que enfrentamos e que, sem elas, dificilmente conseguiríamos estas respostas.

A própria ideia do Bem Viver, que afirma que todas as formas de desenvolvimento econômico deram errado e que, por meio dos aprendizados indígenas da região andina, nos propõe uma sociedade em que o poder é horizontal, é utópica. Claro, enxergar relações de poder através das lentes do pensamento colonial nos faz valorizar certos tipos de hierarquia em detrimento de outras, mas ter uma sociedade que não nega, mas horizontaliza o poder, nos parece uma boa utopia.

Se você, porém, estiver passando pela Marginal Pinheiros, sentido bairro, na cidade de São Paulo, vai se deparar com um novo complexo imobiliário que conta com parque, shopping, quadra de tênis, hospital, escola, piscina, tudo “o que você precisa para não sair de casa", o Parque Global, que possui, nada mais, nada menos, que o complexo Utopia.

“Felicidade, estar com as pessoas que você ama, fazer o que gosta, segurança, saúde e bem-estar” - apenas para pessoas brancas, vale salientar - viraram utopia realista. O que se vende como um cenário futurista mais se parece com feudos de um mundo distópico, onde ricos desejam ficar distantes dos problemas da cidade.

Pesquisas sobre padrões urbanos da cidade de São Paulo já mostraram que, quanto mais desigual, sem igualdade de oportunidades e presença de serviços públicos básicos para todos, como hospitais, escolas, espaço de lazer, postos policiais, maior a violência de um bairro.

Não precisa ser especialista para perceber que a proximidade de bairros que não oferecem tais serviços ao lado do complexo Utopia tende a aumentar a violência na região.

E, aí sim, se esconder em feudos medievais pode ser a melhor ideia utópica de todas.

Como diria Maria (minha orientadora da pós), que cita Gizela (amiga de Maria), que provavelmente leu Adorno: O capitalismo fagocita tudo. Levaram nossas utopias.